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Nau da Carreira da Índia descoberta no fundo do mar de Cascais

24 Set 2018
O achado da Nau Carreira da Índia, naufragada entre finais do século XVI e inícios do Séc. XVII, descoberta no âmbito da campanha de 2018 da Carta Municipal Arqueológica Subaquática de Cascais, foi anunciada no Forte de S. António da Barra.

Após apresentação das filmagens da descoberta, explicada por arqueólogos da Câmara Municipal de Cascais, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e da Escola Naval, que acompanham este projeto, foi reafirmada, por todas as entidades presentes e parceiras, a importância deste achado e a necessidade do aprofundamento desta parceria.

Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, destacou a importância deste achado e falou do "impacto que vai ter para as futuras gerações". Manifestou o propósito de dar continuidade a "todo este trabalho de investigação e de prospeção", realçando a importância do investimento "no conhecimento e na educação".

Também o Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante Calado Mendes, falou da importância de dar "continuidade" a esta parceria do projeto da Carta Municipal Arqueológica Subaquática de Cascais, garantindo até o alargamento desse apoio "nas valências de que dispõe, nas diferentes áreas científicas" que a Marinha domina, designadamente "na parte hiperbárica, para períodos de mergulho mais prolongado, identificando janelas de segurança para operação de mergulho nesta investigação e em tudo o que Câmara Municipal de Cascais e os outros parceiros neste projeto possam precisar", disse.

A cerimónia contou também com a presença do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, o secretário de Estado da Defesa, Marcos Perestrello e do reitor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Francisco Caramelo.

A descoberta

A descoberta ocorrida a 3 de setembro, num raro momento de desassoreamento, a 12 metros de profundidade, à entrada da Barra, o que permitiu que a equipa de arqueólogos subaquáticos da Câmara Municipal de Cascais se cruzasse com aquela que é uma das mais importantes descobertas do projeto Municipal da Carta Arqueológica Subaquática de Cascais, em curso desde 2009: Uma Nau da carreira da Índia num intervalo temporal que aponta para finais do século XVI e princípios do século XVII.

A descoberta, que contou com o apoio logístico do Porto de Recreio de Oeiras, confirmou a existência de vestígios de um navio português da Carreira da Índia dos finais do século XVI ou início do século XVII. Os trabalhos preliminares realizados através do registo fotogramétrico e do levantamento com recurso a geofísica permitiram obter uma primeira radiografia dos vestígios e da sua dispersão, que abrange uma área estimada em 100 metros de comprimento por 50 metros de largura. Foram ainda registadas peças de artilharia em bronze com o escudo nacional ou esfera armilar, fragmentos de pratos da época Wanli (1573-1619), especiarias como a pimenta, cauris utilizados no tráfico de escravos e zonas de casco semelhantes aos encontrados em S. Julião da Barra nos vestígios da Nau Nossa Senhora dos Mártires (1606), mas com maior expressão estrutural.

Esta campanha, que surge na sequência de protocolo firmado com a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, protocolo esse que seria reforçado em 2016-17, com a assinatura de novo protocolo com o Centro de Investigação da Escola Naval e a Câmara Municipal de Almada, permitiu já localizar no mar de Cascais, 133 sítios arqueológicos subaquáticos que remontam à época romana, onde se encontraram cepos de âncora em chumbo, bem como importantes testemunhos dos períodos moderno e contemporâneo, em que se destacam canhões, âncoras e vestígios de navios em madeira, ferro e aço.

Todas as descobertas realizadas são alvo de monitorização patrimonial, biológica e sedimentar. Avaliam-se, paralelamente, as condições hidrográficas para a criação de um campus de formação avançada numa associação entre a Câmara Municipal de Cascais e a Cátedra UNESCO – Património Cultural dos Oceanos.

O Projeto Municipal da Carta Arqueológica Subaquática do Litoral de Cascais (ProCASC), aprovado pela Câmara Municipal de Cascais em 2005, tem vindo a afirmar-se pelo seu ineditismo e inovação, que o distingue a nível nacional. Os valores culturais, científicos e económicos que potencia contribuem, assim, de forma determinante para a afirmação da identidade histórica e tradição marítima de Cascais, mas também para a valorização do mar enquanto desígnio municipal e nacional.

Reconhecido pela UNESCO como exemplo de "boas práticas" no plano da valorização e fruição do Património Comum da Humanidade, este trabalho de gestão e de divulgação da Cultura Marítima de Cascais, tendo por base a arqueologia, que se desenvolve entre as enseadas do Cabo da Roca e a entrada da Barra do Tejo, constitui igualmente uma inovação ao nível da inventariação, uma vez que foi integrado no Plano Diretor Municipal, assumindo-se, desta forma, como um importante ativo para a política de ordenamento e planeamento do território.

Contudo, a arqueologia subaquática de Cascais não se tem limitado ao estudo das evidências do passado do Homem, das dificuldades da navegação ou das tragédias vividas neste mar. Tem igualmente refletido acerca da ligação da cultura ao meio ambiente. Os vestígios arqueológicos são, pois, também analisados como focos de vida, por se transformarem em habitats únicos para a fixação e desenvolvimento da biodiversidade marinha.
Constitui, ainda, um recurso educativo de excelência, que tem contribuído para o fortalecimento da cidadania, através do desenvolvimento da noção de património partilhado, divulgado junto da comunidade por meio de exposições permanentes e itinerantes, conferências, documentários e dezenas de artigos em diversos meios de comunicação social.

O achamento dos vestígios desta Nau são um marco importante no desenvolvimento do ProCASC e da Arqueologia Subaquática Nacional. Confirmam o sucesso do modelo de gestão que Cascais tem implementado, gerando sinergias para a proteção e promoção de uma herança comum. O estudo destes vestígios, a que já foi dado início, é, assim, de desígnio nacional, cabendo a Cascais a responsabilidade de devolver à comunidade uma história até agora esquecida, a bem da sua preservação, estudo e fruição cultural.

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